Publicidade
Publicidade
Secções
Úteis

Arquivo: Edição de 23-10-2009

SECÇÃO: Entrevista


José Luís Bucho, presidente da A.H. dos Bombeiros Voluntários de Setúbal:

foto

“As pessoas têm que perceber que os bombeiros não existem para si próprios”

Assinalou-se na passada segunda-feira, dia 19 de Outubro, a passagem do 126.º aniversário sobre a fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, cujas cerimónias oficiais se realizam amanhã. Em entrevista a «O Setubalense», o actual presidente de direcção da referida Associação, José Luís Bucho – acompanhado na entrevista pelo vice-presidente, Paulo Anjos e pelo 2.º comandante Henrique Santos - fala do passado mas, e principalmente, também do futuro e do muito que ainda está por conseguir para esta corporação.

Ana Maria Santos

red.asantos@osetubalense.pt

«O Setubalense»: Quando a actual direcção assumiu funções quais foram as dificuldades que encontraram e que prioridades foram definidas de imediato?

José Luís Bucho: Encontramos falta de organização, falta de quem dirigisse – nem o presidente nem a direcção tinham uma sala de trabalho -, para além de que, na ocasião, a corporação funcionava na base da confiança, do nacional porreirismo e tipo saco. Ou seja, hoje há dinheiro põe-se no saco, não havia folhas de caixa, não havia conciliações bancárias, não havia contas fechadas, não havia uma série de coisas indispensáveis para uma boa organização.

«O Set.»: Perante essa situação qual foi a vossa posição?

José L. Bucho: Propusemo-nos organizar, manter e melhorar as condições que definem a Associação e que é manter em actividade o corpo de Bombeiros. Lembro-me que na altura também viemos aqui encontrar cerca de 40 viaturas, das quais havia duas ou três que funcionavam, estando as restantes com falta de reparação e acabámos por verificar que, também aquelas que não estavam ai serviço, todas elas pagavam seguro, pagavam imposto de circulação (um imposto de que os bombeiros estão isentos, mas que tem que se pedir essa isenção), pagava-se imposto de circulação e uma série de coisas desnecessárias

«O Set.»: Então a vossa prioridade foi organizar a parte financeira e o parque automóvel?

José L. Bucho: Exactamente! Havia uma enormidade de dívidas a fornecedores, havia dívidas à Segurança Social e ao Fisco, havia dívidas à EDP, havia dívidas a toda a gente…Só para dar um exemplo, quando aqui chegámos tínhamos que ir comprar as coisas com dinheiro vivo na mão porque já ninguém dava crédito aos Bombeiros e era assim que nós estávamos

«O Set.»: E neste momento como se encontra a área financeira?

José L. Bucho: Nesse aspecto temos todas as situações regularizadas, estamos a pagar no máximo de tempo possível e a receber no mínimo de tempo possível, até porque havia pessoas que deviam dinheiro aos bombeiros, desde há muitos anos, e ninguém se preocupava em cobrar, assim como prestações de serviços, transporte de doentes, etc..

«O Set.»: E está a ser possível aumentar o número de sócios, que é uma fonte importante de rendimento?

José L. Bucho: Temos conseguido manter aqueles que já tínhamos, o que já é bom, uma vez que as pessoas aqui em Setúbal, e contrariamente aquilo que seria expectável, até porque a população é em número elevado, não se traduz num número de sócios que, comparativamente com outras localidades do país, semelhantes a Setúbal, em que as associações têm cinco ou seis vezes mais do que a nossa. Nós temos, neste momento, dois mil sócios, o que é um número insignificante, considerando o nível populacional, apesar das regalias que já damos e que vão desde a utilização do espaço social, o próprio serviço que os bombeiros prestam: nós temos protocolos, e parcerias, com empresas onde as pessoas já têm alguns descontos naquilo que as empresas fazem. Mas eu ás vezes entendo, as pessoas já pagam tantos impostos para tanta coisa que entendem que o socorro é um direito que as pessoas têm, e efectivamente é um direito, mas falta essa tal ajuda que, no fundo é uma coisa tão insignificante (um euro) mas que é difícil as pessoas associarem.

«O Set.»: A Associação está a comemorar mais um aniversário e tomou a decisão de fazer as comemorações de cinco em cinco anos. Essa é também uma forma de reforçar a parte financeira?

José L. Bucho: Também! Até porque não faz sentido andarmos a dizer às pessoas as dificuldades financeiras que temos (aliás, todas as associações de bombeiros deste país têm dificuldades financeiras, uma vez que o nosso maior cliente é o Estado e o Estado paga mal e demora a pagar!) e não fazia sentido andarmos todos os anos a fazer comemorações de aniversário com grande expansão, dinamismo e custos, onde iríamos acabar por gastar o dinheiro que nos faz falta para outras coisas. Assim, fazemos coisas mais pequenas, não deixando de assinalar porque é importante que isso seja feito, mas de cinco em cinco anos faremos uma coisa maior, para a população, para envolver as pessoas, as entidades que connosco colaboram e com os quais somos parceiros.

«O Set.»: Nas ajudas que são dadas aos Bombeiros Voluntários, qual o papel da Câmara Municipal?

José L. Bucho: A Câmara ajuda-nos, não só em termos financeiros, mas também noutro tipo de auxílios, nomeadamente em transportes da fanfarra. No entanto, é bom lembrar que a Câmara tem aqui um grande investimento na segurança das pessoas do concelho – sem que receba qualquer tipo de financiamento do Governo para manutenção do corpo de bombeiros -, que é manter uma companhia de bombeiros profissionais, dos quais nós somos um complemento, um auxílio, e a Câmara, reconhecendo-nos esse papel que nos cabe, auxilia-nos também, monetariamente, com cerca de cinco mil euros por mês. Temos um protocolo de colaboração, em que a Associação também colabora com a Câmara e também dá alguma coisa, mas atenção que não à Câmara, mas sim à população

«O Set.»: Neste momento o que é que faz mais falta aos Bombeiros Voluntários?

José. L. Bucho: Faz-nos sempre falta muita coisa mas as pessoas têm que entender uma situação: os bombeiros, e outro tipo de organizações, não existem para si próprios. Existimos para servir os outros e quando pedimos alguma coisa, não é para nosso benefício próprio mas, sim, para servir os outros. Mas o Governo, que é quem tem condições, e obrigações, de apoiar este tipo de associações, muitas vezes quando pedimos mais uma viatura, mais um equipamento, ou quando pedimos qualquer coisa, pensam que é para nós e não estamos a pedir para nós… Eu gostava de ter aqui no Quartel o melhor equipamento, mas para poder servir melhor a população, que é essa a nossa obrigação, enquanto que a segurança é uma obrigação do Estado que, por seu lado, parece não entender as coisas nestes termos e não nos apoiam como deveriam

«O Set.»: Então, nesse ponto falta aquilo de que falávamos a bocado: a sensibilização da população para essas necessidades dos bombeiros que se podem reflectir na ajuda prestada aos cidadãos?

José L. Bucho: Falta é a solidariedade! As pessoas aqui em Setúbal sabem que a Câmara tem uma companhia de bombeiros profissionais e até do ponto de vista da organização dos bombeiros, e daquilo que as pessoas suportam, a população de Setúbal, assim como a dos outros cinco concelhos do país onde existem bombeiros profissionais, é o cidadão que paga! E nesta cidade, como nas outras cinco do país, o dinheiro que vai – e não estou a dizer que não devia existir, deve existir! – para suportar uma companhia de bombeiros profissionais, não vai para educação, não vai para as estradas, não vai para jardins, não vai para mil e uma outras coisa, como vai nos outros concelhos! E, depois, aqui em Setúbal ainda existe mais os voluntários que a Câmara, dentro da medida do possível, também ajuda.

Uma coisa que não se fazia, nem aqui, nem nos Sapadores, era perguntar: quanto é que nos custa de cada vez que sai uma viatura do Quartel? Só para lhe dar um exemplo: aqui há dias andámos ali na serra uma manhã inteira em busca de um indivíduo, que brincou aí com a rapaziada toda, que disse que tinha tido um acidente na Arrábida, etc., etc., ninguém ficou com contactos, nem com coisa nenhuma e, numa manhã, gastou-se 40 mil euros! Quem é que pagou?... A população! É que, de cada vez que sai um carro daqui, alguém tem que suportar o combustível, a manutenção do carro, o equipamento das pessoas que lá vão dentro, os seguros, e quem é que paga? Nos Sapadores paga a Câmara, aqui paga a Associação. Da Câmara sai do orçamento da autarquia e não se fazem outras coisas, daqui sai do orçamento da Associação e temos que andar aqui muitas vezes a fazer ginástica para arranjar esse dinheiro…

«O Set.»: E o vosso relacionamento com os Bombeiros Sapadores?

Henrique Santos: Temos um relacionamento em que fazemos várias actividades em conjunto, inclusive temos alguns funcionários da Associação que estão em actividade na central municipal, onde são centradas as chamadas para os bombeiros. A partir daí, despacham os meios que estiverem mais próximos do local da ocorrência

«O Set.»: Neste momento, que meios materiais e quantos homens têm os Bombeiros Voluntários e que área abrangem?

Henrique Santos: Apesar de estar sempre a crescer – temos também uma escolinha de bombeiros, infantes, que não são contabilizados -, temos um quadro aprovado pela Autoridade Nacional de Protecção Civil de cerca de 87 homens, incluindo todos os quadros. Quanto a viaturas temos de combate a incêndios – florestais, estruturais, uma viatura de grande capacidade e um tanque urbano –, temos ainda três unidades de viaturas de emergência pré-hospitalar, mais duas para transportes múltiplos e mais umas quantas de serviços gerais. Temos ainda meios para apoio no rio: uma lancha, uma embarcação pequena e uma mota de água, com equipamentos para uma mini equipa de mergulhos, todos eles equipamentos novos todos eles adquiridos a custos da Associação.

Paulo Anjos: Não que não tenhamos solicitado apoios, nomeadamente para um auto-comando – éramos o único corpo de bombeiros do distrito que não tinha um veículo desta natureza -, para o qual andámos sistematicamente a pedir, ao ex-comandante distrital, Alcino Marques e nunca obtivemos uma resposta. Acabámos por termos que ser nós a suportar os custos da viatura.

José L. Bucho: O princípio foi: por cada duas viaturas abatidas compramos uma nova.

«O Set.»: Numa altura em que estão a comemorar mais um aniversário, qual a prenda que gostariam de receber?

José L. Bucho: Para servir a população, este tipo de coisas costumamos ver em conjunto com os responsáveis dos Bombeiros Sapadores, uma vez que não faz sentido estarmos aqui a duplicar meios no concelho. Aliás, este carro de incêndios, quando o fomos comprar, fomos acompanhados pelo comandante dos Bombeiros Sapadores. Agora, aquilo que o concelho necessita para, digamos, passar a ser auto-suficiente para as pequenas coisas do dia-a-dia e até para algumas coisas de determinada dimensão, precisamos de um carro de comando e comunicações. O concelho precisa de um carro desses, até mesmo para fazer face a situações de risco, que podem ocorrer no dia-a-dia, porque a primeira que há a fazer no terreno, perante uma situação dessa natureza, é organizar e para o fazer temos que ter meios. Precisamos ainda de mais meios de transporte de água, temos que ter condições para transportar mais água e precisamos de ter mais formação, nomeadamente na emergência pré-hospitalar e o INEM há já alguns anos que não faz formação de início, nem formação de recertificação e precisamos, ainda e principalmente, de mais campanhas de sensibilização da população para os riscos e mais informação.

«O Set.»: E estamos a falar de que riscos?

José L. Bucho: Todos! O nosso concelho tem todos os riscos identificados!...

«O Set.»: E acha que a população entende a necessidade de receber esse tipo de informação/formação?

José L. Bucho: As pessoas acham sempre que as coisas só acontecem aos outros, o pior é que quando lhes bate à porta é que dizem: “ai, ai ,ai, onde é que estão os bombeiros?” e depois querem que tenhamos uma ambulância disponível para cada pessoa, ou quando há fogo na serra, uma viatura para cada casa.

Tempo de leitura: 10 m
Imprimir Artigo
Enviar por Email
Comentário Privado
Comentário Publico
Adicionar Favoritos

Votar:

Resultado:
26 Votos

Comentários dos nossos leitores
SetubalenseSetubalense@netvisão.pt
Gostei: Nao Gostei Concordo: Discordo
Comentário:
Realmente, como podem estes Senhores falar em associação humanitária de Voluntariado se tudo o que fazem cobram à população valores altíssimos, bem como todos os seus elementos são pagos para estarem ao serviço no quartel! Voluntariado só de nome, pois gostava que estes Senhores apresentassem a tabela de preços dos serviços que prestam e que o cidadão tem de pagar!
 
Rui Peixotorui_peixoto@live.com.pt
Gostei: Muito Concordo: Discordo
Comentário:
1. Gostava de fazer aqui uma reflexão, quantos euros já pagam os contribuintes em impostos? Mais euros para ser sócio dos Bombeiros Voluntários? Já agora porque não se cria uma associação de médicos voluntários, onde teríamos pseudo-médicos e pagaríamos todos um euro por mês, ou uma associação de professores voluntários e mais um euro, ou melhor e ai sim, sou totalmente de acordo, uma associação de políticos voluntários, isso sim seria um euro bem empregue, em vez de lhes pagarmos, todos nós, os exorbitantes salários aos tantos e tantos políticos que temos e ainda mais assessores que não sabemos ao certo o que fazem e para que servem e todo esse dinheiro mal gasto faria belas estradas, construía bons hospitais sem termos de pagar taxas, bonitos jardins para desfrutarmos com os nosso filhos, entre mil e uma coisa.
 
Rui Peixotorui_peixoto@live.com.pt
Gostei: Muito Concordo: Discordo
Comentário:
Gostava também de relembrar que na manhã que os bombeiros e militares andaram em busca do tal brincalhão que ninguém ficou com o contacto, a entidade que recebeu a chamada foi o CODU, sem lhes querer atribuir quaisquer culpas, pois pode ter sido por enumeras razões sem ter sido nenhuma por falta de tentativa. Outro ponto que gostava de ver esclarecido, é o dinheiro que a Câmara gasta com os Sapadores nas saídas para serviço, dinheiro esse previsto pelo orçamento de estado vindo como todos nos sabemos, dos contribuintes, quanto que o dinheiro gasto como os Voluntários com as saídas para serviço, vem das Autoridade Nacional de Protecção Civil que lhes paga á saída, dinheiro esse que vem curiosamente também dos contribuintes e não da Associação. Agora pergunto, o que será que um popular prefere? Um bombeiro profissional, formado para cumprir a sua função na íntegra ou um tipo qualquer, formado ou não, que não pode ser responsabilizado caso exerça mal a sua função, bem, sou cidadão Nacional, pago as minhas contribuições e não tenho dúvida em quem prefiro que me socorra.
 
Rui Peixotorui_peixoto@live.com.pt
Gostei: Sem Opiniao ... Concordo: Sem Opiniao ...
Comentário:
Acho que o Sr. Henrique Santos se enganou quando disse que eram “despachados os meios que estiverem mais próximos do local da ocorrência”, primeiro, isso não é possível legalmente e se o fazem, estão a ocultar serviços á central Distrital e alguém devia inspeccionar o que se anda a fazer nos Bombeiros Voluntários de Setúbal, segundo, muitas das vezes os Voluntários que apesar de o serem apenas de nome, não garantem pessoal suficiente de serviço para sair nas viaturas para as ocorrências mesmo a perto do seu quartel e terceiro, os Bombeiros Sapadores são responsáveis por todas as ocorrências de socorro no município de Setúbal, não vamos confundir socorro com transportes ambulatórios, esses sim, prestam apenas os Voluntários, cobrando. Gostava de saber onde param os “87 homens”, visto que um dos subsídios que recebem da Câmara Municipal de Setúbal, é para terem todos os dias das 08 horas da manha as 17 horas da tarde, uma ambulância com guarnição no Destacamento dos Sapadores em Azeitão e isso não acontece com muita frequência, será que ao fim de cada mês esses inúmeros dias deixam de ser cobrados á Câmara também? Não nos vamos esquecer que esse dinheiro vem do contribuinte e fazia falta também para muitas outras coisas!
 
Rui Peixotorui_peixoto@live.com.pt
Gostei: Muito Concordo: Discordo
Comentário:
Fiquei um pouco confuso com uma frase dita pelo Sr. Henrique Santos, e que diz ter uma “ mini equipa de mergulhos”, não quero parecer rude, muito menos mal-educado, mas como não conheço qualquer equipa de mergulho dos Bombeiros Voluntários, não sei se a palavra “mini” aqui se refere a Sagres ou Super Bock, a verdade seja dita, o Sr. Henrique também não disse que era uma equipa de mergulho ou mergulhadores, apenas disse equipa de mergulhos e talvez se esteja a referir aos mergulhos que tanto gostamos de dar na praia, é normal que os Bombeiros Voluntários também gostem. Mas já é hábito os Bombeiros Voluntários nos prendarem com equipas e equipamento para tudo e mais alguma coisa sem fazerem nada em concreto, já acredito em tudo.
 
Joaquim Botassapeur99@hotmail.com
Gostei: Sem Opiniao ... Concordo: Sem Opiniao ...
Comentário:
Desde que o crgo de acessor foi criado, o partido comunista, que diga-se em abono da verdade é a favor da classe trabalhadora, consegue ter acessores em todas as pastas. Como consegue a Camara Municipal de Setubal, pagar 2400€ a um acessor na area da protecção civil e bombeiros, deixando-o acumular o cargo de presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários?Por menos o anterior comandante dos Bombeiros Sapadores de Setúbal foi "corrido" por imcompatibilidades e ao mesmo tempo deixa uma pessoa fazer algo pior. De seguida Gostava de ser esclarecido, se fosse possivel, como está a Camara Municipal de Setúbal a pagar um serviço aos bombeiros voluntários de 60.000€ sabendo que não o estão a cumprir?Para finalizar e pegando no termo CMOS, será que a única cidade do país que está a cumprir essa directiva é a mesma em que o presidente da associação de bombeiros é o mesmo que o acessor na area da protecção civil e bombeiros???É no mínimo duvidoso...
 

Diga o que pensa sobre este texto. O seu comentário será publicado online após aprovação da redacção.

GosteiConcordo
Comentários
NomeEmail
Código de VerificaçãoInsira os algarismos da figura
 
© 2007 O Setubalense | Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.