Arquivo: Edição de 21-07-2008
|
SECÇÃO: Geral |
|
“A Engenharia Biomédica aplica os conceitos da Engenharia à Saúde”“A Engenharia na Saúde” foi o Tema da Tertúlia Científica do Club Setubalense do mês de Julho, realizada na passada quinta-feira.
Esta foi a sexta, de um conjunto de oito Tertúlias, a realizar em 2008 – uma parceria Club Setubalense / Escola Superior de Tecnologia de Setúbal do Instituto Politécnico de Setúbal (ESTSetúbal/IPS). A sessão contou com a presença, enquanto orador, do Professor Doutor Fernando Cruz, Docente do Departamento de Mecânica da ESTSetúbal/IPS, Director do Curso de Engenharia Biomédica e Vice-Presidente do Conselho Directivo. A apresentação iniciou com as primeiras respostas àquela que, fundamentalmente, seria a questão-chave: o que é a Engenharia Biomédica, como surge e quais as necessidades que visa satisfazer? Quem por lá esteve presente ficou a saber que a aproximação entre a “Engenharia” e a “Saúde” manifestou-se, inicialmente, através de projectos de construção de instalações hospitalares e respectiva manutenção. No entanto, só o desenvolvimento tecnológico iria proporcionar o “casamento perfeito” das duas áreas devido à sua capacidade de criação de novos equipamentos auxiliares de diagnóstico e de tratamento. Com que objectivo? Facilitar o trabalho dos profissionais de saúde e a qualidade dos serviços prestados. No âmbito deste interface “Engenharia/Saúde” surge o Engenheiro Biomédico – “o profissional que utiliza os conhecimentos tradicionais das áreas da Engenharia, aplicando-os à área da Saúde”. Não tendo, porém, qualquer intervenção no acto médico “não deverá ser confundido com um profissional de saúde”, como relembrou o orador. No fundo, o grande segredo destes novos profissionais estará em saber articular a linguagem da Tecnologia/Engenharia com a da Saúde/Medicina, de modo a saber gerir, projectar e manusear tecnologias médicas muito sofisticadas. Com que objectivo? Mais uma vez, melhorar a qualidade de vida das pessoas. Como? Actuando na prevenção e no tratamento de doenças. Em termos cronológicos, apenas em 2006 surgiriam, no mercado português, os primeiros Engenheiros Biomédicos com formação de raiz. Nesse mesmo ano, a Escola Superior de Tecnologia de Setúbal do Instituto Politécnico de Setúbal iniciou a leccionação do curso de Engenharia Biomédica, em parceria com a Escola Superior de Saúde do mesmo Instituto. Adaptado a Bolonha, o curso prevê lançar no mercado os seus primeiros licenciados em 2009. Na sua estrutura curricular integra três ramos: o Ramo de “Biomecânica”, que aplica a mecânica clássica a problemas médicos e biológicos; o Ramo de “Bioelectrónica”, que aplica a electrónica e técnicas de instrumentação ao desenvolvimento de equipamentos de diagnóstico e tratamento de doenças; e o Ramo de “Sistemas de Informação Médica”, que desenvolve e utiliza sistemas e tecnologias de informação e comunicação (TIC) no contexto da Saúde, quer no apoio à sua gestão, quer no apoio operacional ao atendimento dos seus utentes. Se quiséssemos definir “Engenharia Biomédica” diríamos, tal como o Prof. Fernando Cruz salientou, que se trata de uma “área que integra os princípios das ciências exactas e da saúde desenvolvendo abordagens inovadoras aplicadas na prevenção, no diagnóstico e na terapia de doenças”. No entanto, mais do que conceitos, importa perceber de que modo a Engenharia Biomédica está presente no nosso dia a dia. Pois bem, actualmente, a Engenharia actua em diversos domínios da saúde que se sobrepõem à mera concepção de projectos de edifícios hospitalares e respectiva manutenção. É hoje frequente a actuação em áreas como a concepção, instalação e assistência técnica de dispositivos médicos; desenvolvimento de software clínico; formação técnica de profissionais de Saúde, entre outros. O desenvolvimento e produção de próteses, bem como de instrumentos médicos e equipamentos de diagnóstico são, actualmente, exemplos de actividades desenvolvidas na área da Engenharia Biomédica, as quais acresce o estudo dos organismos vivos do ponto de vista da Engenharia (dispositivos médicos). Constituindo uma área em forte expansão, são várias as empresas de electrónica que apostam progressivamente nesta Engenharia. Isto porque os dispositivos médicos ao serviço da Engenharia Biomédica são cada vez mais, e tecnicamente mais avançados. Para fundamentar esta ideia, o orador projectou algumas imagens de dispositivos médicos. Por entre os vulgares instrumentos médicos, objectos como seringas, estetoscópios, cadeiras de roda, auxiliares de locomoção, etc. Num patamar mais técnico: Sistemas de Tomografia Computorizada (vulgarmente conhecido como TAC); Equipamentos de Ressonância Magnética; Ultrasons (Ecografia); Sistemas de Diagnóstico Cardiovascular; Pulmão artificial; Fixadores externos; Implantes metálicos; Imagiologia (visão computacional do ser humano e sua manipulação); Projecto e fabrico de próteses; Tratamento de Diagnóstico e Monitorização do Cancro (PET/TC); Implantação de Lentes (remoção da catarata do óculo e colocação de uma lente de silicone); Próteses Auditivas (possibilidade que a microfabricação oferece para produção de componentes em miniatura); Correcção de Hérnias Discais (através da colocação de biomateriais entre as cartilagens); Biosensores; Bioinformática; Telemedicina; Cirurgia Assistida por Computador; Cirurgia Robotizada; Próteses inteligentes. As Próteses Inteligentes como por exemplo a Mão Biónica, na qual os 5 dedos são accionados por motores eléctricos autónomos, e que replica quase na totalidade a mão real, foi desenvolvida na Escócia e está já em fase de comercialização. Chegado o momento do público intervir, o interesse manifesto foi expresso pela relevante e animada participação, ora de profissionais de saúde, ora de futuros profissionais, ora de meros interessados na temática. O debate iniciou-se com a intervenção da Presidente do Club Setubalense, Drª Maria Helena de Mattos: “Como é que a Comunidade Médica se articula com a Engenharia Biomédica?”. Uma questão pertinente, à qual o orador respondeu clarificando que, face ao objectivo comum da resolução de problemas de saúde, quer por parte de profissionais de saúde, quer por parte de engenheiros biomédicos, são os profissionais de saúde que confrontados com um problema, solicitam, aos Engenheiros, as soluções técnicas para a sua resolução. Existe aqui um “desafio lançado pelos profissionais de Saúde à Comunidade Científica, na procura de soluções”. “Esta tecnologia poderá ser posta ao serviço da Medicina Legal?” A resposta, naturalmente positiva, relembrou a importância que a tecnologia poderá adquirir na detecção de causas de acidentes ou na morte. Em caso de acidentes nos quais metade do crânio fique desfeito é possível, através de um procedimento de “Engenharia Inversa” digitalizar o crânio e reproduzir virtualmente a outra metade, reconstruindo assim a totalidade do rosto. Este é apenas um, entre muitos exemplos, de como a tecnologia poderá ajudar a Medicina Legal. Em ambiente informal e descontraído, não faltou a partilha de ideias e experiências de quem, na primeira pessoa “tratou da Saúde” a muita gente, sem recurso à vasta tecnologia hoje disponível. Antigos Profissionais de saúde, como o Doutor Machado Luciano e o Doutor Fonseca Ferreira admitiram a importância da evolução da tecnologia. No entanto, recordaram com saudosismo o tempo em que se tratavam as pessoas sem “toda esta tecnologia que veio tirar o encanto à Medicina, tal e qual como ela era”. Após algumas peripécias narradas na primeira pessoa, o público tocou numa questão importante: a empregabilidade e capacidade de criação de empresas nestas áreas, nomeadamente por parte dos alunos do Instituto Politécnico de Setúbal. Confortável para responder à questão, até porque, actualmente, é o Director de Curso de Eng. Biomédica da ESTSetúbal/IPS, explicou que no Politécnico começa a criar-se um espírito empreendedor de descoberta de negócio e desenvolvimento de ideias. Este estímulo à criação de auto-emprego tem levado a que os alunos apresentem cada vez mais ideias de negócio. Exemplo disso, o Projecto SIDIABE – Sistema de Informação de Gestão da Diabetes, que ganhou o 1º lugar regional do Concurso de Ideias Poliempreende. Para além disso, referiu ainda o orador que, actualmente, existem fortes manifestações por parte de profissionais da zona quanto à garantia de estágios aos nossos alunos, e quanto ao interesse no desenvolvimento de projectos futuros em conjunto. E assim continuou a Tertúlia, num misto de partilha e aquisição de conhecimentos. Quem por lá esteve ficou a conhecer todos os detalhes… Este “Ciclo de Tertúlias” será interrompido durante o mês de Agosto, regressando em Setembro, dia 25 Setembro 2008, nas tradicionais q uintas-feiras à noite, pelas 21h00. O Club Setubalense receberá o Professor Carlos Banha, na tertúlia: “Estuário do Sado: Técnicas de Medição da Qualidade da Água”. A entrada continuará a ser livre e todos os participantes são bem vindos.
|
