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Arquivo: Edição de 06-11-2009

SECÇÃO: Opinião


O antigo Palácio dos Morgados Godinhos

Este imóvel que também era conhecido como a “casa queimada” encontra-se situado na Avenida Luísa Todi, frente ao antigo Quartel do R. I., nº 11 (na época Caçadores nº 1. Este antigo palácio foi vitimado por um incêndio na tarde do dia 19 de Outubro de 1869.

Os herdeiros dos morgados Godinhos, mantiveram este imóvel incompleto durante muitos anos, por lhes faltarem recursos para a sua recuperação visto que a herança de fidelcomisso (obrigação da conservação e transmissão), os obrigavam igualmente a manter a sua capela nos baixos do seu edifício com a porta principal virada para o Largo do Postigo do Cais, e ainda por o mesmo estar bastante onerado por algumas hipotecas. Na frente deste edifício, existiu por debaixo da janela central, um nicho com um santo, cujo nome não consegui descobrir.

Numa das escrituras das hipotecas, a que este edifício estava onerado, estava mencionado que aqui existiu um pátio de entrada ladeado a painéis de azulejos, que tinha sido hipotecado à Santa Casa da Misericórdia, motivo porque havia a pagar anualmente 25$000 réis de prémio.

Para conseguirem o acabamento deste imóvel, os herdeiros negociaram com António Silva, (procurador da firma Torlades & C.ia), que tinham os seus escritórios de exportação de sal grosso para o estrangeiro, assim como eram agentes de navegação e banqueiros, no primeiro andar, sujeito este, que mais tarde comprou este imóvel.

Após esta compra, foi então recuperado o 2º andar deste.

Neste andar nobre e de requintado gosto, alojou-se o rei D. Pedro V, quando visitou esta vila, onde se encontrou com o infante D. João, vindo de Alcácer do Sal.

O incêndio que ali se manifestou, foi motivado pelo descuido de uma das criadas, com um ferro de engomar. Na época só existiam duas bombas, ambas municipais, de incêndios e de tracção manual. Uma estava instalada na Avenida Luísa Todi, onde se encontra o edifício da 1ª esquadra e a outra, na ladeira da antiga fábrica do Perienes, local onde existiram mais tarde, umas retretes públicas.

Em relação aos 2º e 3º filhos dos morgados Godinhos que eram aparentados com a família de Aquino Mascarenhas, nada consta. Quanto ao 2º andar, onde se manifestou o incêndio, este estava alugado à família Brancamp, proprietário oriundo de Évora. Após o desastre a firma Torlades, pediu ao comandante de Caçadores 1, (mais tarde R. I. nº 11) , autorização para colocar alguns caixotes com o arquivo e reservas monetárias do seu movimento comercial, junto à sentinela do Quartel, o que lhe foi concedido. Muito tempo após este incêndio, reuniram os cidadãos de destaque da então vila, tendo sido fundada a Real Associação dos Bombeiro Voluntários, isto, segundo consta, em 9 de Março de 1884.

Passados anos, após estes acontecimentos, sendo já este imóvel de outro proprietário, a viúva D. Francisca de Amorim e Silva, após o falecimento de seu esposo, foi viver para Lisboa, vendendo este a seu sobrinho José Eduardo Ahrens, que mais tarde vendeu-o a Augusto William Grill Este, utilizou durante anos, os baixos do edifício como armazém de madeiras que vinham da Suécia, assim como carvão de pedra, para o fornecimento dos rebocadores dos buques de pesca. Antes da sinalização Semafórica existente no jardim da J. A. P. Setúbal, frente ao mar para alertar os pescadores, esteve hasteado num mastro ao cimo deste edifício, uns camaroeiros sinaléticos que eram conhecidos por sacos de café, avisando os pescadores quanto aos temporais que se avizinhavam, como colaboração da família Grill.

Este edifício segundo sei, foi há alguns anos adquirido pelo então proprietário já falecido, José Maria Vagueiro.

João Francisco Envia

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