População de Azeitão cansada de esperar por mudança da Carmona

Cansados de esperar por uma intervenção que pare a emissão de cheiros e gases provenientes da Carmona (empresa de tratamento de resíduos e limpezas industriais), os moradores de Azeitão desesperam pelo cumprimento de um acordo assinado em 2008, entre aquela empresa e a autarquia sadina, que prevê a transferência da actividade para a área industrial da Mitrena.

Ana Maria Santos

12690Instalada na Jardia, em Brejos de Clérigos, Azeitão, a empresa de tratamento de resíduos e limpezas industriais, Carmona, tem, desde há vários anos, sido a causa de muitas queixas dos moradores daquela área do concelho que, para além do cheiro “insuportável” que dizem sentir quase que diariamente, o problema, dizem, “agravou-se nos últimos tempos com a instalação de uma ETAR e de um tanque de tratamento de lamas oleosas.
A situação não é novidade (já por diversas vezes aqui demos conta das queixas da população residente) e a mesma levou à constituição (em 2003) de uma associação, a Respirar – Associação de Defesa do Ambiente e Qualidade de Vida de Brejos de Azeitão, cujo presidente, João Inácio, refere que através da mesma “já fizemos tudo o que é possível, desde abaixo-assinado, uma providência cautelar, um acordo judicial (em 2004) que a empresa durante algum tempo foi cumprindo, mas neste momento a situação está pior que nunca e nós vivemos aqui num inferno”.
Segundo alguns dos moradores residentes naquela área do concelho, “vivemos com cheiros insuportáveis, que nos invadem as casas, o mal estar físico é uma constante (desde más disposições a dores de cabeça muito fortes), para além da dúvida de que outro tipo de consequências terá para a saúde a inalação constante destes gases”. Aliás, uma das residentes com quem falámos, uma senhora de 67 anos, asmática, referiu que “ainda na semana passada tive que ir para o hospital e nem dentro de casa consigo estar, apesar de trancar portas e janelas nem mesmo assim consigo impedir que os cheiros me entrem dentro de casa”.
CONTACTOS: Na tentativa de obter alguma solução para este mal-estar constante provocado, segundo os moradores, pela referida empresa, a Respirar tem vindo a desenvolver vários contactos, desde o ministério do Ambiente, Quercus, Câmara Municipal de Setúbal, etc., etc., nomeadamente através do Tribunal, com um acordo judicial, celebrado em 2004, com várias cláusulas (algumas das quais impostas pelo ministério do Ambiente) e onde consta que presa ficava obrigada “à cobertura do tanque de armazenagem das lamas oleosas”, “a impermeabilização com recolha de águas residuais potencialmente contaminadas de todas as áreas passíveis de produção das mesmas, onde se inclui a zona de recepção dos ‘óleos escuros’” e que a empresa “desenvolverá todas as medidas que se revelem necessárias para evitar a libertação de emissões gasosas que poderão estar na origem dos cheiros intensos que se propagam para a zona habitacional”.
Segundo João Silva Inácio, naquela altura a empresa “não tinha a necessária licença ambiental, o ministério do Ambiente foi fechando os olhos, dizendo que eram meia dúzia de pessoas que reclamavam, que a empresa estava cá primeiro antes dos moradores, o que é mentira porque quando a Carmona veio para aqui era uma barraca lá bem ao fundo, havia poucas casas mas, entretanto, foram-se expandindo e estão aqui mesmo junto às habitações”. No entanto, e quanto ao acordo judicial, o presidente da Respirar diz que a Carmona “foi cumprindo até conseguir a licença ambiental, o que aconteceu em 2008 e a partir dai, já assumem que esta é uma actividade que tem cheiros mas que estão licenciados, para além de que, ao abrigo daquela mesma licença, construíram um tanque de lamas oleosas (submetido a um tratamento com cal viva) que, ao ferver, liberta os gases que nós, aqui a dezenas de metros, respiramos! Para além da criação de uma ETAR (onde todos os resíduos são tratados) que nós temos a certeza que são as duas fontes deste problema”
Com os cheiros intensos a atingir uma vasta área habitacional – entre Pinhal de Negreiros e os Picheleiros – a preocupação aumenta relativamente às possíveis consequências na saúde da população.